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Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — VUNESP 2025

PortuguêsTipologia e Gênero Textual
Código
vu218239
Banca
VUNESP
Órgão
CUSC
Ano
2025
Cargo
Vest Med ( )

Em “A saúde dos doentes”, o grande escritor argentino Julio Cortázar conta uma história patética. Trata-se de um rapaz que deixa a Argentina para morar no exterior (em Recife, especificamente) e morre. Além da dor representada por essa perda, a família vê-se diante de um sombrio problema: como dar a notícia à mãe do falecido, ela própria portadora de uma séria doença cardíaca? Decidem, então, manter a ilusão de que o jovem continua vivo. Para isso, forjam cartas dele. O truque funciona à perfeição — as cartas são tão convincentes que até a família acredita nelas. De repente, morre a mãe. E Cortázar encerra o conto com aquelas pessoas colocando-se, involuntariamente, outra questão: como dar ao familiar de Recife a notícia da morte da mãe?

 

O que temos aí é uma mentira piedosa, tão piedosa que exigiu o comprometimento de várias pessoas, as quais, por sua vez, comprometeram-se tanto com a piedosa mentira que chegaram a acreditar nela.

 

O drama vivido pela fictícia família é aquele que muitos médicos enfrentam. Como dar uma má notícia? Como dizer a uma pessoa que ela está com câncer terminal?

 

No passado, o princípio básico era poupar o doente, mesmo que à custa de uma encenação. […] Essa situação começou a mudar a partir dos Estados Unidos. Lá, pacientes processavam médicos exatamente por não terem sido informados de um diagnóstico sério e de um prognóstico reservado. Por causa disso, alegavam, não tinham posto suas coisas em ordem — em termos de testamento, de providências várias. E os médicos passaram, então, a uma seca objetividade. Há casos em que o paciente é informado pelo telefone: “Recebi o laudo de sua biópsia. É câncer.”

 

Claramente, o pêndulo oscilou na direção oposta. E será preciso conseguir uma nova posição de equilíbrio. Uma posição em que a verdade possa ser revelada, mas num clima de mútua compreensão. O que a medicina, inclusive, agora permite: câncer há muito tempo deixou de ser uma condenação para ser o diagnóstico de uma situação que, grave às vezes, sempre permite providências e não raro uma cura definitiva. Nem a mentira piedosa nem o brusco anúncio.

 

(Moacyr Scliar. O olhar médico: crônicas de medicina e saúde, 2005.)

Leia o trecho inicial da crônica “Piedosas mentiras”, do escritor Moacyr Scliar, para responder à questão abaixo.     O primeiro parágrafo da crônica deixa-se caracterizar como
  1. Aum artigo de opinião.
  2. Buma paráfrase.
  3. Cum artigo científico.
  4. Duma metalinguagem.
  5. Euma paródia.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — uma paráfrase.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O primeiro parágrafo da crônica: uma paráfrase do conto de Cortázar

Gabarito: letra B. O primeiro parágrafo da crônica de Moacyr Scliar é uma paráfrase — uma reescrita, com outras palavras, do enredo do conto “A saúde dos doentes”, de Julio Cortázar. O texto não defende opinião, não apresenta rigor científico, não fala da própria linguagem e não deforma o original com ironia: ele reconta fielmente a história, como se lê já na primeira linha: “Em ‘A saúde dos doentes’, o grande escritor argentino Julio Cortázar conta uma história patética.”

O comando: o que a questão pede

A questão pergunta como se caracteriza o primeiro parágrafo — ou seja, qual é a natureza tipológica desse trecho. Não se trata de interpretar o sentido do texto, mas de reconhecer o tipo de operação textual que o autor realizou: ele reescreveu o enredo do conto de Cortázar. Isso muda a resolução: você não procura uma ideia, procura a função do parágrafo em relação ao texto-fonte.

O texto: o que o primeiro parágrafo faz

O primeiro parágrafo narra o enredo do conto: um rapaz morre no exterior, a família esconde a notícia da mãe doente, forja cartas, a mãe morre e fica a pergunta sobre como avisar o familiar de Recife. Veja a passagem que prova a paráfrase:

“Em ‘A saúde dos doentes’, o grande escritor argentino Julio Cortázar conta uma história patética. Trata-se de um rapaz que deixa a Argentina para morar no exterior (em Recife, especificamente) e morre.”

O autor não cria uma história nova; ele reproduz, com suas palavras, a história de Cortázar. Isso é a definição exata de paráfrase: reescrita que preserva o conteúdo e o sentido original, mudando apenas a forma de expressão.

A técnica: paráfrase × outros conceitos

A paráfrase é uma forma de intertextualidade — diálogo entre textos — em que se mantém a ideia do texto-fonte, mas se troca a forma. Diferencia-se de:

  • Paródia: também reescreve, mas com intenção crítica, irônica ou cômica, deformando o original.

  • Metalinguagem: o texto fala sobre si mesmo ou sobre a linguagem (ex.: um poema que discute o fazer poético).

  • Artigo de opinião: gênero que defende uma tese com argumentos.

  • Artigo científico: gênero que expõe resultados de pesquisa com metodologia e referências.

O primeiro parágrafo não tem nenhuma dessas marcas: não há tese, não há método científico, não há reflexão sobre a linguagem, não há ironia. Há apenas o relato fiel do enredo.

1Paráfrase
Mesmo conteúdo
Outra forma
Sem ironia
2Paródia
Conteúdo deformado
Intenção crítica/irônica
3Metalinguagem
Fala sobre a própria linguagem
Intertextualidade
LEVELsoulevel.com.br
Intertextualidade: Paráfrase (Mesmo conteúdo, Outra forma, Sem ironia); Paródia (Conteúdo deformado, Intenção crítica/irônica); Metalinguagem (Fala sobre a própria linguagem)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Artigo de opinião é um gênero em que o autor defende um ponto de vista sobre um tema, com argumentos. O primeiro parágrafo não defende nada: apenas conta a história do conto. A opinião do cronista só aparece depois, no segundo parágrafo (“O que temos aí é uma mentira piedosa...”), e mesmo assim não é um artigo de opinião, é uma crônica. Erro: troca de conceito — confunde gênero opinativo com narração de enredo.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O parágrafo é uma paráfrase porque reescreve, com outras palavras, o enredo do conto de Cortázar, preservando o conteúdo. A prova está na abertura: “Em ‘A saúde dos doentes’, o grande escritor argentino Julio Cortázar conta uma história patética.” O autor não cria uma história nova; ele reproduz, com suas palavras, a história de Cortázar. Isso é a definição exata de paráfrase: reescrita que preserva o conteúdo e o sentido original, mudando apenas a forma de expressão.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Artigo científico é um gênero que expõe resultados de pesquisa, com metodologia, dados e referências. O primeiro parágrafo não tem nada disso: é uma narrativa do enredo, sem qualquer aparato científico. Erro: extrapolação — atribui ao texto uma finalidade que ele não tem.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Metalinguagem ocorre quando o texto fala sobre a própria linguagem ou sobre si mesmo. O primeiro parágrafo não discute a linguagem: fala sobre o conto, mas não reflete sobre o ato de narrar ou sobre as palavras. Erro: troca de conceito — confunde “falar sobre um texto” com “falar sobre a linguagem”.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Paródia é uma reescrita crítica, irônica ou cômica de um texto. O primeiro parágrafo não deforma o conto de Cortázar: ele o reconta fielmente, sem ironia ou zombaria. Erro: troca de conceito — confunde paráfrase com paródia, que são formas de intertextualidade, mas com intenções opostas.

Fechamento

A regra de ouro: paráfrase = mesmo conteúdo, outra forma; paródia = conteúdo deformado, intenção crítica. O primeiro parágrafo mantém o enredo de Cortázar, logo é paráfrase. Gabarito: letra B.

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