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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218293
Banca
VUNESP
Órgão
FICSAE
Ano
2025
Cargo
Vest ( )

O fim do mundo talvez seja uma breve interrupção de um estado de prazer extasiante que a gente não quer perder. Parece que todos os artifícios que foram buscados pelos nossos ancestrais e por nós têm a ver com essa sensação. Quando se transfere isso para a mercadoria, para os objetos, para as coisas exteriores, se materializa no que a técnica desenvolveu, no aparato todo que se foi sobrepondo ao corpo da mãe Terra. Todas as histórias antigas chamam a Terra de Mãe, Pacha Mama, Gaia. Uma deusa perfeita e infindável, fluxo de graça, beleza e fartura. Veja-se a imagem grega da deusa da prosperidade, que tem uma cornucópia1 que fica o tempo todo jorrando riqueza sobre o mundo… Noutras tradições, na China e na Índia, nas Américas, em todas as culturas mais antigas, a referência é de uma provedora maternal. Não tem nada a ver com a imagem masculina ou do pai. Todas as vezes que a imagem do pai rompe nessa paisagem é sempre para depredar, detonar e dominar.

 

O desconforto que a ciência moderna, as tecnologias, as movimentações que resultaram naquilo que chamamos de “revoluções de massa”, tudo isso não ficou localizado numa região, mas cindiu o planeta a ponto de, no século XX, termos situações como a Guerra Fria, em que você tinha, de um lado do muro, uma parte da humanidade, e a outra, do lado de lá, na maior tensão, pronta para puxar o gatilho para cima dos outros. Não tem fim do mundo mais iminente do que quando você tem um mundo do lado de lá do muro e um do lado de cá, ambos tentando adivinhar o que o outro está fazendo. Isso é um abismo, isso é uma queda. Então a pergunta a fazer seria: “Por que tanto medo assim de uma queda se a gente não fez nada nas outras eras senão cair?”.

 

Já caímos em diferentes escalas e em diferentes lugares do mundo. Mas temos muito medo do que vai acontecer quando a gente cair. Sentimos insegurança, uma paranoia da queda porque as outras possibilidades que se abrem exigem implodir essa casa que herdamos, que confortavelmente carregamos em grande estilo, mas passamos o tempo inteiro morrendo de medo. Então, talvez o que a gente tenha de fazer é descobrir um paraquedas. Não eliminar a queda, mas inventar e fabricar milhares de paraquedas coloridos, divertidos, inclusive prazerosos. Já que aquilo de que realmente gostamos é gozar, viver no prazer aqui na Terra. Então, que a gente pare de despistar essa nossa vocação e, em vez de ficar inventando outras parábolas, que a gente se renda a essa principal e não se deixe iludir com o aparato da técnica.

 

(Ideias para adiar o fim do mundo, 2020.)

 

1 cornucópia: vaso em forma de chifre, com frutas e flores que dele extravasam

profusamente, antigo símbolo da fertilidade, riqueza, abundância.

Para responder à questão, leia um trecho da obra Ideias para adiar o fim do mundo, uma adaptação de duas palestras e uma entrevista realizadas com o autor Ailton Krenak.

   

No último parágrafo, o autor faz uma analogia que utiliza as imagens da “queda” e do “paraquedas”. Ao propor que fabriquemos paraquedas, Krenak sugere

  1. Aevitar que a queda aconteça, ainda que se esteja preparado.
  2. Bsuperar a queda, de modo a sequer se aproximar dela.
  3. Cprever o percurso da queda, para desenvolver um aparato eficiente.
  4. Deliminar a possibilidade da queda, mesmo contra todas as evidências.
  5. Eatenuar o impacto da queda, já que esta se mostra inevitável.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — atenuar o impacto da queda, já que esta se mostra inevitável.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A analogia da queda e do paraquedas em Krenak

Gabarito: letra E. Ao propor que fabriquemos paraquedas, Krenak sugere atenuar o impacto da queda, já que esta se mostra inevitável — a passagem decisiva é: "Não eliminar a queda, mas inventar e fabricar milhares de paraquedas coloridos, divertidos, inclusive prazerosos." O verbo "eliminar" é negado e o "mas" introduz a alternativa: não se evita a queda, amortece-se seu efeito.

O comando pede interpretação ("sugere"), não mera localização de informação explícita. Você precisa inferir o sentido da metáfora a partir das pistas textuais. A banca quer que você perceba que o paraquedas não é um instrumento para impedir a queda — é um recurso para torná-la menos danosa, já que ela é dada como inevitável.

No último parágrafo, o autor constrói a analogia em três movimentos: primeiro, afirma que "Já caímos em diferentes escalas e em diferentes lugares do mundo" — a queda é um fato recorrente; depois, diagnostica o medo: "temos muito medo do que vai acontecer quando a gente cair"; por fim, propõe a solução: "descobrir um paraquedas. Não eliminar a queda, mas inventar e fabricar milhares de paraquedas". A conjunção adversativa "mas" é a chave: ela opõe "eliminar" a "inventar paraquedas", deixando claro que o objetivo não é impedir a queda, e sim conviver com ela de forma mais segura e prazerosa.

A técnica para resolver: teste cada alternativa perguntando se o texto autoriza a ideia de evitar/eliminar a queda. O texto é explícito ao negar essa possibilidade: "Não eliminar a queda". Qualquer alternativa que sugira evitar, superar, prever para evitar ou eliminar a queda contradiz o texto ou extrapola o que ele diz. A única que se alinha à proposta do autor é a que fala em atenuar o impacto, pois o paraquedas não impede a queda, apenas a torna menos violenta.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com alternativas que parecem lógicas (evitar a queda, superá-la), mas o texto é categórico: "Não eliminar a queda". A armadilha está em aceitar uma solução que o autor explicitamente recusa.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Evitar que a queda aconteça, ainda que se esteja preparado. O texto diz o oposto: "Não eliminar a queda". A ideia de "evitar" contradiz a afirmação explícita do autor. Erro: contradiz o texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Superar a queda, de modo a sequer se aproximar dela. "Superar" e "sequer se aproximar" implicam que a queda pode ser evitada ou vencida, o que o texto nega. O autor não fala em superar, mas em atravessar a queda com um paraquedas. Erro: extrapolação — acrescenta uma ideia de vitória sobre a queda que não está no texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Prever o percurso da queda, para desenvolver um aparato eficiente. O texto não menciona prever o percurso nem desenvolver aparato para isso. O paraquedas não é um instrumento de previsão, mas de amortecimento. Erro: extrapolação — introduz uma finalidade (prever) que não existe no texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Eliminar a possibilidade da queda, mesmo contra todas as evidências. O texto é explícito: "Não eliminar a queda". A alternativa contradiz frontalmente a proposta do autor. Erro: contradiz o texto.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Atenuar o impacto da queda, já que esta se mostra inevitável. Esta é a única que se alinha à analogia: o paraquedas não impede a queda, apenas reduz seu impacto. O texto afirma: "Não eliminar a queda, mas inventar e fabricar milhares de paraquedas coloridos, divertidos, inclusive prazerosos". A palavra "mas" estabelece a oposição entre eliminar e atenuar, e a ideia de inevitabilidade está em "Já caímos em diferentes escalas e em diferentes lugares do mundo". Correta: paráfrase fiel da proposta do autor.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de analogia, identifique o termo comparado e o termo comparante. Aqui, a queda é o problema inevitável; o paraquedas é a solução que não elimina o problema, apenas o torna suportável. Pergunte-se: "o que o paraquedas faz com a queda?" — ele amortece, não impede.

Gabarito: letra E — a única que respeita a negação explícita de "eliminar a queda" e capta o sentido de atenuação presente na imagem do paraquedas.

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