Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218296
Banca
VUNESP
Órgão
FICSAE
Ano
2025
Cargo
Vest ( )
No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu imperceptível crescer
como carne da lua
nos noturnos lábios entreabertos
E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar
No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada
Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas1
a espera do silêncio
(Mia Couto. Poemas Escolhidos, 2016.)
1 timbila: instrumento musical de percussão, do tipo xilofone,
tradicional de Moçambique.
Para responder à questão, leia o poema “Desencontro (2)”, de Mia Couto. A situação amorosa descrita pelo eu lírico envolve
Ao desespero causado pela separação da amada, e a consequente aceitação de sua ausência definitiva.
Bum momento de plenitude e paixão extrema, interrompido pela morte da pessoa amada.
Cuma relação amorosa conflituosa que alterna momentos de euforia e ressentimento.
Da negação do próprio desejo amoroso diante da solidão imposta pela ausência da pessoa amada.
Eum sentimento solitário, manifestado no silêncio e moldado pela ausência da pessoa amada.
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GabaritoE — um sentimento solitário, manifestado no silêncio e moldado pela ausência da pessoa amada.
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Desencontro (2): a solidão moldada pela ausência
Gabarito: letra E. A situação amorosa descrita pelo eu lírico é a de um sentimento solitário, manifestado no silêncio e moldado pela ausência da pessoa amada — exatamente o que o poema constrói do início ao fim. A passagem decisiva está na última estrofe: "Para me acostumar / à tua intermitente ausência / ensinei às timbilas / a espera do silêncio". O eu lírico não vive um drama de separação definitiva, nem um conflito amoroso: ele se ajusta à ausência da amada, e esse ajuste se dá no silêncio — as timbilas (instrumentos musicais) são ensinadas a esperar o silêncio, ou seja, a própria música cede lugar à quietude. A solidão é o ambiente afetivo do poema, e a ausência é o que o molda.
O comando pede compreensão global: "a situação amorosa descrita pelo eu lírico envolve". Isso significa que a resposta deve sintetizar o que o poema, como um todo, comunica — não uma inferência ousada, nem uma leitura parcial de um único verso. É uma questão de recorrência: a alternativa correta é uma paráfrase fiel do conjunto de imagens e sentimentos expressos.
O poema de Mia Couto é lírico e marcado por imagens de ausência, invenção e silêncio. O eu lírico ama "no avesso das palavras / na contrária face / da minha solidão" — ou seja, o amor nasce dentro da solidão, não apesar dela. Ele ama "sem saberes", "sem o saber", num movimento de procura e invenção: "amando de te procurar / amando de te inventar". A amada é ausente, intermitente, e o eu lírico se adapta a essa ausência: "Para me acostumar / à tua intermitente ausência / ensinei às timbilas / a espera do silêncio". Não há desespero, não há morte, não há conflito — há uma solidão que se expressa no silêncio e que é moldada pela ausência.
A técnica para resolver é testar cada alternativa contra o texto: a correta é a única que não acrescenta nada de fora. As distratoras (A, B, C, D) cometem o erro clássico de extrapolar — pegam uma imagem do poema (solidão, ausência, amor) e a transformam em um drama que o texto não autoriza. A alternativa E, ao contrário, é uma síntese fiel: solidão (presente desde o primeiro verso), silêncio (a espera das timbilas) e ausência (a "intermitente ausência" da amada).
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora extrapolar com um fato verdadeiro que o texto não traz. Aqui, ela pega a solidão e a ausência e as transforma em "desespero", "morte", "conflito" ou "negação do desejo" — tudo isso é invenção. A correta é a que fica exatamente no que o poema diz.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão global, grife as palavras-chave do texto (solidão, ausência, silêncio) e veja qual alternativa as reúne sem acrescentar nada. Desconfie de qualquer alternativa que introduza um drama novo (morte, desespero, conflito) que não está no poema.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto fala em "intermitente ausência" e em "me acostumar" a ela, mas não há "desespero" nem "aceitação de ausência definitiva". O eu lírico se ajusta, não se desespera; a ausência é intermitente, não definitiva. A alternativa inventa um drama que o poema não sustenta.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. Não há nenhuma menção a "morte" no poema. A ausência da amada é "intermitente", ou seja, ela vai e volta — não é uma perda definitiva. A alternativa introduz um fato (a morte) que não está no texto, e ainda o transforma em "plenitude interrompida", o que contradiz o tom de solidão e silêncio do poema.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O poema não descreve uma relação "conflituosa" nem alterna "euforia e ressentimento". O eu lírico ama "sem saberes", num movimento de procura e invenção, sem qualquer traço de conflito ou ressentimento. A alternativa projeta no texto um drama relacional que não existe.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação e troca de sentido. O eu lírico não nega o desejo amoroso; ao contrário, ele o afirma de forma intensa: "eu te amei", "amei-te sem o saber", "amando de te procurar". A solidão não é "imposta" pela ausência como algo a que ele se submete passivamente — ele se adapta, ensina as timbilas a esperar o silêncio. A alternativa inverte o sentido do poema.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
É a única inteiramente sustentada pelo texto. A solidão aparece já no primeiro verso: "na contrária face / da minha solidão". O silêncio é o desfecho: "ensinei às timbilas / a espera do silêncio". E a ausência é nomeada: "à tua intermitente ausência". A alternativa é uma paráfrase fiel do conjunto — não acrescenta nada, não suprime nada.
Conclusão: a questão cobra compreensão global, e a resposta é a que sintetiza o poema sem extrapolar. As distratoras (A, B, C, D) cometem o erro de acrescentar dramas (morte, desespero, conflito, negação) que o texto não autoriza. A letra E é a única que fica exatamente no que o poema diz: solidão, silêncio e ausência.