Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218369
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFIMES
Ano
2025
Cargo
Vest ( )
Desde criança lidava Manuel com animais: fora esse o ofício de seu pai; não havia em toda a campanha1 do Rio Grande amansador de fama que se comparasse com o João Canho. O que mais se admirava no moço gaúcho não era contudo a destreza, na qual excedia de muito ao pai; porém sim a dedicação que ele tinha à raça hípica.
Havia entre o gaúcho e os cavalos verdadeiras relações sociais. Alguns faziam parte de sua família; outros eram seus amigos; aos mais tratava-os como camaradas ou simples conhecidos. [...]
Na opinião de Manuel o cavalo e o homem contraíam obrigação recíproca; o cavalo de servir e transportar o homem; o homem de nutrir e defender o cavalo. Se um dos dois faltasse ao compromisso, o outro tinha o direito de romper o vínculo. O homem devia expulsar o cavalo, o cavalo devia deixar o homem. [...]
Enfim o cavalo era para o gaúcho um próximo, não pela forma, mas pela magnanimidade e nobreza das paixões. Entendia ele que Deus havia feito os outros animais para vários fins recônditos2 em sua alta sabedoria; mas o cavalo, esse Deus o criara exclusivamente para companheiro e amigo do homem.
Tinha razão.
Se o homem é o rei da criação, o cavalo serve-lhe de trono. Veículo e arma ao mesmo tempo, ele nos suprime as distâncias pela rapidez, e centuplica nossas forças. Para o gaúcho, especialmente para o filho errante da campanha, esse vínculo se estreita.
O peixe carece d’água, o pássaro do ambiente, para que se movam e existam. Como eles, o gaúcho tem um elemento, que é o cavalo. A pé está em seco, faltam-lhe as asas. Nele se realiza o mito da antiguidade: o homem não passa de um busto apenas; seu corpo consiste no bruto3. Uni as duas naturezas incompletas: este ser híbrido é o gaúcho, o centauro da América.
(O gaúcho, 1978.)
1 campanha: campo de grande extensão, pampa.
2 recôndito: desconhecido, secreto, misterioso.
3 bruto: animal, fera.
Leia o trecho do romance O gaúcho, de José de Alencar, para responder à questão Na descrição do personagem Manuel, identifica-se uma das principais características do período literário a que pertence José de Alencar. Trata-se da
Aironia.
Breligiosidade.
Ccrítica social.
Didealização.
Eobjetividade.
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GabaritoD — idealização.
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Idealização romântica na caracterização de Manuel
Gabarito: letra D. A descrição de Manuel no trecho de O gaúcho revela a idealização, traço central do Romantismo: o personagem é apresentado com qualidades exaltadas e uma relação quase mística com os cavalos, elevado à condição de "centauro da América". O texto não apresenta ironia, crítica social ou objetividade; ao contrário, engrandece o herói e a natureza, como se lê no trecho final: "Nele se realiza o mito da antiguidade: o homem não passa de um busto apenas; seu corpo consiste no bruto. Uni as duas naturezas incompletas: este ser híbrido é o gaúcho, o centauro da América."
O comando da questão
O enunciado pede que se identifique, na descrição do personagem, uma característica do período literário a que pertence José de Alencar — o Romantismo. Isso não é uma questão de compreensão literal, mas de interpretação que relaciona o texto ao contexto histórico-literário. Você precisa reconhecer, nas escolhas do autor, a marca do estilo de época: a idealização do herói, da natureza e do amor.
O texto e a tese
O trecho descreve Manuel como um gaúcho excepcional: "não havia em toda a campanha do Rio Grande amansador de fama que se comparasse com o João Canho". O narrador exalta sua dedicação aos cavalos e estabelece uma relação de reciprocidade entre homem e animal: "o cavalo e o homem contraíam obrigação recíproca". O ponto culminante é a comparação do gaúcho a um ser mítico: "este ser híbrido é o gaúcho, o centauro da América". Essa elevação do personagem a uma figura quase divina é típica do Romantismo, que idealiza o herói nacional.
A técnica: reconhecer a idealização
A idealização romântica consiste em representar a realidade de forma aperfeiçoada, exaltando qualidades e suavizando defeitos. No texto, Manuel não é apenas um domador de cavalos; ele é descrito com adjetivos superlativos e uma relação quase sagrada com os animais: "Enfim o cavalo era para o gaúcho um próximo, não pela forma, mas pela magnanimidade e nobreza das paixões". O autor não descreve o gaúcho de forma realista, mas o transforma em um herói lendário. Essa é a marca do Romantismo, que também se manifesta na idealização da natureza e do índio (no caso, o gaúcho como herói regional).
Análise das alternativas
Romantismo
1Idealização
Herói exaltado
Natureza nobre
Relação mítica (centauro)
2Outras escolas
Ironia (Machado)
Crítica social (Realismo)
Objetividade (Parnasianismo)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Ironia é um recurso que consiste em dizer o contrário do que se pensa, geralmente com intenção crítica ou humorística. No texto, não há nenhuma marca de ironia: o narrador fala sério, exaltando Manuel. A alternativa extrapola ao atribuir um tom que não existe no trecho.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Religiosidade aparece de forma periférica: "Deus havia feito os outros animais para vários fins recônditos". Mas a questão pede a característica principal do período, e a religiosidade não é o traço definidor do Romantismo de Alencar. A alternativa tangencia o texto, pois a menção a Deus é apenas um detalhe, não o eixo da descrição.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Crítica social é típica do Realismo, não do Romantismo. O texto não critica a sociedade; ao contrário, celebra o gaúcho e sua relação com os cavalos. A alternativa contradiz o tom elogioso do trecho.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Idealização é a característica central. O texto engrandece Manuel, transformando-o em um herói quase mítico: "o centauro da América". A relação com os cavalos é descrita de forma nobre e elevada, sem defeitos ou aspectos negativos. Isso é a idealização romântica do herói e da natureza.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Objetividade é a característica oposta à idealização: descrever os fatos de forma impessoal, sem juízos de valor. O texto é claramente subjetivo e exaltador, com adjetivos como "magnanimidade" e "nobreza". A alternativa contradiz o tom do trecho.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece características de outras escolas (ironia, crítica social, objetividade) e uma característica genérica (religiosidade) para confundir o candidato que não reconhece a idealização romântica. Fique atento ao tom exaltado e à elevação do herói.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar a escola literária, procure marcas textuais: idealização (Romantismo), crítica social (Realismo), objetividade (Parnasianismo), ironia (Machado de Assis). No texto, a exaltação do gaúcho como "centauro" é a pista decisiva.
Conclusão: a descrição de Manuel é um exemplo clássico de idealização romântica, que transforma o herói em uma figura lendária. As demais alternativas ou não encontram apoio no texto ou pertencem a outras escolas literárias.