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Questão de Português — Crase — FEPESE 2026

PortuguêsCrase
Código
qg678076
Banca
FEPESE
Órgão
Prefeitura de Concórdia - SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Analista de Gestão Administrativa

Leia a crônica de Rubem Braga.


MAR


A primeira vez que eu vi o mar eu não estava sozinho. Estava no meio de um bando enorme de meninos. Nós tínhamos viajado para ver o mar. No meio de nós havia apenas um menino que já o tinha visto. Ele nos contava que havia três espécies de mar: o mar mesmo, a maré, que é menor que o mar, e a marola, que é menor que a maré. Logo a gente fazia ideia de um lago enorme e duas lagoas. Mas o menino explicava que não. O mar entrava pela maré e a maré entrava pela marola. A marola vinha e voltava. A maré enchia e vazava. O mar às vezes tinha espuma e às vezes não tinha. Isso perturbava ainda mais a imagem. Três lagoas mexendo, esvaziando e enchendo, com uns rios no meio, às vezes uma porção de espumas, tudo isso muito salgado, azul, com ventos.



Fomos ver o mar. Era de manhã, fazia sol. De repente houve um grito: o mar! Era qualquer coisa de largo, de inesperado. Estava bem verde perto da terra, e mais longe estava azul. Nós todos gritamos, numa gritaria infernal, e saímos correndo para o lado do mar. As ondas batiam nas pedras e jogavam espuma que brilhava ao sol. Ondas grandes, cheias, que explodiam com barulho. Ficamos ali parados, com a respiração apressada, vendo o mar…



Depois o mar entrou na minha infância e tomou conta de uma adolescência toda, com seu cheiro bom, os seus ventos, suas chuvas, seus peixes, seu barulho, sua grande e espantosa beleza. Um menino de calças curtas, pernas queimadas pelo sol, cabelos cheios de sal, chapéu de palha. Um menino que pescava e que passava horas e horas dentro da canoa, longe da terra, atrás de uma bobagem qualquer – como aquela caravela de franjas azuis que boiava e afundava e que, afinal, queimou sua mão… Um rapaz de 14 ou 15 anos que nas noites de lua cheia, quando a maré baixa e descobre tudo e a praia é imensa, ia na praia sentar numa canoa, entrar numa roda, amar perdidamente, eternamente, alguém que passava pelo areal branco e dava boa noite… Que andava longas horas pela praia infinita para catar conchas e búzios crespos e conversava com os pescadores que consertavam as redes. Um menino que levava na canoa um pedaço de pão e um livro, e voltava sem estudar nada, com vontade de dizer uma porção de coisas que não sabia dizer – que ainda não sabe dizer.



Mar maior que a terra, mar do primeiro amor, mar dos pobres pescadores maratimbas, mar das cantigas do Catambá, mar das festas, mar terrível daquela morte que nos assustou, mar das tempestades de repente, mar do alto e mar da praia, mar de pedra e mar do mangue… A primeira vez que saí sozinho numa canoa parecia ter montado num cavalo bravo e bom, senti força e perigo, senti orgulho de embicar numa onda um segundo antes da arrebentação. A primeira vez que estive quase morrendo afogado, quando a água batia na minha cara e a corrente do “arrieiro” me puxava para fora, não gritei nem fiz gestos de socorro; lutei sozinho, cresci dentro de mim mesmo. Mar suave e oleoso, lambendo o batelão. Mar dos peixes estranhos, mar virando a canoa, mar das pescarias noturnas de camarão para isca. Mar diário e enorme, ocupando toda a vida, uma vida de bamboleio de canoa, de paciência, de força, de sacrifício sem finalidade, de perigo sem sentido, de lirismo, de energia; grande perigoso mar fabricando um homem…



Este homem esqueceu, grande mar, muita coisa que aprendeu contigo. Este homem tem andado por aí, ora aflito, ora chateado, dispersivo, fraco, sem paciência, mais corajoso que audacioso, incapaz de ficar parado e incapaz de fazer qualquer coisa, gastando-se como se gasta um cigarro. Este homem esqueceu muita coisa, mas há muita coisa que ele aprendeu contigo e que não esqueceu, que ficou, obscura e forte, dentro dele, no seu peito. Mar, este homem pode ser um mau filho, mas ele é teu filho, é um dos teus, e ainda pode comparecer diante de ti gritando, sem glória, mas sem remorso, como naquela manhã em que ficamos parados, respirando depressa, perante às grandes ondas que arrebentavam – um punhado de meninos vendo pela primeira vez o mar…



Vocabulário


  • caravela: espécie de água-viva
  • maratimbas: do interior do Espírito Santo
  • catambá: dança popular do Espírito Santo
  • embicar: atravessar com a embarcação
  • batelão: canoa, barcaça
  • arrieiro: correnteza marítima
Assinale a alternativa em que obrigatoriamente deve ser usada uma crase.
  1. AVocê olhou aquele cronista?
  2. B“Desce a terra, o amor existe”.
  3. CEle está a quilômetros de distância.
  4. DNão fale tal coisa as outras pessoas.
  5. EO fenômeno a que aludi é indescritível.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Não fale tal coisa as outras pessoas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Crase – Casos obrigatórios

Gabarito: letra D. A alternativa D exige crase porque o verbo "falar" rege a preposição "a" e o substantivo feminino plural "as outras pessoas" pede o artigo "as", formando a fusão "às". Nas demais alternativas, não há a combinação de preposição + artigo feminino que justifique o uso do acento grave.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Você olhou aquele cronista?" – O verbo "olhar" não exige preposição antes de "aquele" (pode ser usado como objeto direto). O demonstrativo "aquele" é masculino, portanto não há artigo feminino para contrair com a preposição. A crase só seria possível se houvesse preposição e o demonstrativo fosse feminino ("àquela").

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Desce a terra, o amor existe" – Nesta frase, "a terra" é objeto direto do verbo "descer" (descer a escada, descer a terra). Não há preposição antes do artigo, logo não ocorre crase. Se fosse "desce à terra" (com sentido de ir para a terra), exigiria crase, mas o texto não traz o acento.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Ele está a quilômetros de distância." – A palavra "quilômetros" é masculina e não admite artigo feminino. A preposição "a" está presente, mas não há artigo para fundir-se, portanto crase é impossível.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Não fale tal coisa as outras pessoas." – O verbo "falar" (no sentido de dirigir-se a) rege a preposição "a". O termo "as outras pessoas" é feminino plural e exige o artigo definido "as". Assim, temos a fusão: fale a + as outras pessoas = fale às outras pessoas. O uso do acento grave é obrigatório.

PEGA ESSA DICA!

Para verificar se a crase é obrigatória, substitua o termo feminino por um masculino correspondente. Se surgir "ao", há crase. Ex.: "fale às pessoas" → "fale aos homens" (aparece "ao"). Se surgir apenas "a" (preposição) ou "o" (artigo), não há crase.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"O fenômeno a que aludi é indescritível." – Aqui, "a" é preposição exigida pelo verbo "aludir" (aludir a algo/alguém). O "que" é pronome relativo, que não admite artigo. Portanto, não há artigo feminino para formar a crase. Erro comum é pensar que "a que" deve ser acentuado, mas isso só ocorre quando "que" é substituível por "o qual" e o antecedente é feminino? Na verdade, antes de pronomes relativos "que", "quem", "cujo", não se usa crase.

NÃO CAIA NESSA!

A alternativa E é a mais traiçoeira: a expressão "a que" lembra situações em que ocorre crase (como "à qual"), mas o relativo "que" nunca é antecedido de artigo, portanto o acento grave é proibido.

PEGA ESSA DICA!

Para um homem dizer tudo a mulheres cara a cara

Frase que reúne casos em que a crase é PROIBIDA: antes de palavra masculina, de verbo, de artigo indefinido, de pronomes (em geral), de palavra feminina no plural (quando o 'a' está no singular) e de palavras repetidas (cara a cara).

— Crase — casos proibidos

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